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Hoje é Domingo, 05 de Setembro de 2010.
26 Elul, 5770.

FORMAS MUSICAIS
Por Leonardo Perin


Quantas vezes não paramos em frente a uma doceira para os bolos, tortas, e confeitos expostos? Quantas vezes alguém não ficou fascinado com a aparência apetitosa de uma rosca?

Pode parecer estranho que se comece um capítulo sobre musicologia tecendo considerações gastronômicas. É que só mediante uma imagem visível se pode explicar esse fato abstrato: as formas musicais.

Seguindo o exemplo, considere-se que com os mesmos ingredientes o confeiteiro pode limitar-se a pôr para cozer bolotas de massas, sem se preocupar com o seu aspecto. No entanto, para que as roscas atraiam os olhares, “peçam” para ser experimentadas, procura faze-las bonitas: desenha tranças, enfeita com açúcar e confeitos. Ainda que feitos com todos os ingredientes necessários à receita, simples bolotas de massa não aguçariam o paladar de ninguém.

Os especialistas em arte culinária sabem que nem só da massa vive o bolo, a torta, a rosca: a sua forma, a estrutura total, não deve ser negligenciada. É o mesmo caso da música, só que esta não deverá agradar à vista mas ao ouvido. Nem só de tema vive a música. O ouvido humano pede que ele se distribua dentro de determinadas regras de equilíbrio rítmico e métrico, enfim, que apresente um todo agradável.

Conforme a maneira que a música (ou tema) seja colocada dentro do tempo e do espaço, surgirá esta ou aquela forma musical. A forma é o modo de distribuição desses elementos e a relação a ordem e dependência que mantêm entre si. Podem ser muitas e variadas, recebendo nomes específicos: Rondó, Dança, Fuga, Fantasia, Minueto, Prelúdio, Variação.

O MEDIEVAL RONDÓ
Originalmente o Rondó chamava-se “Rondeau” e constituía a “canção de roda”, forma medieval de música para baile. O solista cantava as variações e o côro respondia com o refrão, também chamado ripresa ou ritornello, ou seja, “devolvia” a parte sempre igual do tema. O sistema foi usado no século XVII, principalmente pelos franceses François Couperin, D’Algbert e Jean-Philippe Rameau e pelos compositores de ópera.

Em fins do século XVIII, o termo foi italianizado, transformando-se, em Rondó; passou a ser utilizado no movimento final das sonatas, concertos e sinfonias clássicas, baseando-se, mais ou menos, no princípio da “ronda cantada”. Após diferentes variações, que para melhor compreensão podem ser identificadas como B, C e D, volta-se sempre para A, que é o tema base, refrão ou Rondó. B, C e D são de menor importância e mais curtos, existindo quase que só para dar contraste e destaque a A. A forma musical Rondó é geralmente alegre, fácil de ouvir e distinguir seus movimentos rápidos: A, B, A, C, A, D, A, e assim por diante, sempre retornando a A. Um exemplo célebre de Rondó é a Marcha Turca, de Mozart.

MINUETO: DE DANÇA À FORMA MUSICAL
Minueto era uma dança francesa de ritmo ternário (em três tempos), muito cultivada na Côrte desde o século XVII. Damas e cavalheiros de cabeleiras empoadas acompanhavam o andamento lento e cerimonioso da música fazendo mesuras e dando passinhos ( menu – pequeno). Partindo da França, o minueto conquistou toda a Europa, suplantando as demais danças que existiam. Aos poucos deixou de ser apenas uma dança e passou a ser uma forma musical particular, usadas em peças instrumentais que não eram para ser dançadas e sim ouvidas.

No século XVIII, passou a integrar-se nas formas clássicas, com ritmo acelerado, aparecendo como trechos de suítes e sinfonias. Usando outras vez as letras, pode-se dizer que as parte que compõe o minueto são duas, dispostas assim: A, B, A; A, B, A, podendo ser repetidas muitas vezes mas conservando sempre a mesma ordem. Um exemplo típico de minueto como dança encontra-se também na obra de Mozart, em Don Giovanni. E entre os mais populares, há o famoso minueto de Bocherini.

A MESMA MÚSICA SOBRE NOVO ÂNGULO
No sentido geral do termo, Variactio, variação, seria qualquer modificação feita numa música já composta. Mas, em geral, trata-se da repetição de um tema musical em forma diferente da original.

As alterações executadas nessa repetição podem afetar a melodia, o ritmo, a harmonia e a orquestração, mas essas diversas possibilidades não podem parecer combinadas. Isso porque se deve permitir que se identifique o tema e as alterações sobre a composição original. O tema utilizado para a composição de variações é geralmente curto e simples. Muitos autores famosos fizeram variações sobre temas de autores não menos famosos. É o caso de Beethoven, que compôs variações sobre temas de Diabelli; de Brahms, sobre temas de Händel.

Existem ainda variações cujo tema não é uma música inteira já composta mas apenas um fragmento ou grupo de harmonias. Esse fragmento serve como tema da nova composição, sendo “aumentado” e “reforçado”, enriquecido de novas variações, que podem afear a melodia, o ritmo, a orquestração. Em seu primeiro movimento a Sonata em Lá maior, de Mozart, nos oferece um exemplo típico de variação. No campo da orquestração musical, destaca-se o Bolero, de Ravel. As mais antigas variações encontram-se nas composições polifônicas, no Cantochão e nas músicas medievais.

FUGAS, A ESPECIALIDADE DE BACH
Três cantores dão um recital: um barítono, um soprano e um tenor. O barítono canta uma melodia curta. O tenor retomará essa melodia, com ligeiras modificações. O soprano retoma a melodia cantada pelo tenor, dando-lhe, por sua vez, novas características. Cada voz deve fazer, que sua voz coincida com as demais, a fim de obter um conjunto Harmonioso: é a Fuga, uma das formas musicais mais elaboradas e difíceis, tanto de compor como de ouvir. É preciso que o ouvido esteja habituado, a fim de estar apto a acompanhar e aprender a sutileza da harmonia, vocal e do contraponto.

Chama-se Fuga porque uma voz parece estar fugindo completamente da outra. Toda a teoria sobre essa forma musical se baseia em Johann Sebastian Bach que, com maestria de gênio, deu vida a uma imensa variedades de construções de fuga, esgotando todas as possibilidades do contraponto (técnica da fuga) principalmente em duas obras: O Cravo bem temperado e Arte da Fuga. Depois dele a fuga passou a existir em obras sacras, transformando-se em mero exercício de contraponto. Na música do século XX, tornou a aparecer com compositores de peças de estilo neobarroco e neoclássico.

SONATA, BASE DE MUITAS OUTRAS FORMAS
Tendo origem na palavra latina suonare, que significa “soar”, a sonata é uma composição instrumental, composta geralmente para piano violino e violoncello. Consta de três ou quatro movimentos, organizado segundo determinadas regras: o primeiro compreende a exposição, desenvolvimento e reexposição de dois temas diferentes, como se fossem dois atores dialogando; o segundo movimento e lento e expressivo, encontrando-se, muitas vezes, com o terceiro, que pode ser um minueto. O final da sonata é geralmente um Rondó.

Como forma musical, é uma das mais significativas, pois além da importância que tem como um todo em si mesmo, é a estrutura de base de outras formas musicais.
Encontra-se a sonata, como forma, na sinfonia, nos diversos tipos de música de câmara, no concerto instrumental. Sinfonia, seria a sonata executada por orquestra; quarteto, a sonata para quatro instrumentos de câmara, e assim por diante: trios, quintetos, octetos, e etc.

A expressão sonata, foi usada pela primeira vez em 1580. No século XVIII seus maiores compositores foram Mozart e Haydn. Foi nessa época, que adquiriu o esquema de três ou quatro movimentos e dividiu-se em três gêneros: a sonata de câmara para: trios, quartetos, quintetos; e a sonata orquestral a sinfonia. Conservando seus quatro movimentos, Beethoven deu forma definitiva à sonata.

Do ponto de vista histórico, as mais importantes sonatas foram compostas por: Beethoven, Haydn, Mozart, Schubert. No século XIX, sofreu certo declínio em sua popularidade, o que ocasionou a diminuição da produção. No século XX, voltou a despertar o interesse dos amantes de música e de certos compositores, principalmente Stravinski e Hindemith.

PRELÚDIO: O CARTÃO DE VISITAS
Como diz o nome, prelúdio é uma peça musical executada antes da obra propriamente dita, de uma representação ou mesmo de uma cerimônia. É a introdução ao que está por acontecer, a abertura, enfim. Com esse sentido são famosos os prelúdios de Bach. A partir do século XIX, tornou-se uma forma musical curta, quase independente da obra que viria a seguir e tinha fim puramente descritivo e impressionista. O prelúdio foi muito empregado sob esse aspecto nas composições de Chopin, César Franck e Claude Debussy. Nas obras Lohengrin e Parsifal, Wagner apresenta o prelúdio como abertura curta de um drama lírico, e introduz nele, trechos do drama.

No início do século XX, alguns autores procuraram compor “formas abertas”, indeterminadas, como se a música saísse do terreno da poesia e entrasse no da prosa. Mas a prosa também tem formas próprias. E a forma da música, quando bem estruturada, pode ser a mesma dos trovadores medievais.