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FORMAS
MUSICAIS
Por Leonardo Perin
Quantas vezes não paramos em frente
a uma doceira para os bolos, tortas, e confeitos expostos? Quantas vezes
alguém não ficou fascinado com a aparência apetitosa
de uma rosca?
Pode parecer estranho que se comece um capítulo sobre musicologia
tecendo considerações gastronômicas. É que
só mediante uma imagem visível se pode explicar esse fato
abstrato: as formas musicais.
Seguindo o exemplo, considere-se que com os mesmos ingredientes o confeiteiro
pode limitar-se a pôr para cozer bolotas de massas, sem se preocupar
com o seu aspecto. No entanto, para que as roscas atraiam os olhares,
“peçam” para ser experimentadas, procura faze-las
bonitas: desenha tranças, enfeita com açúcar e
confeitos. Ainda que feitos com todos os ingredientes necessários
à receita, simples bolotas de massa não aguçariam
o paladar de ninguém.
Os especialistas em arte culinária sabem que nem só da
massa vive o bolo, a torta, a rosca: a sua forma, a estrutura total,
não deve ser negligenciada. É o mesmo caso da música,
só que esta não deverá agradar à vista mas
ao ouvido. Nem só de tema vive a música. O ouvido humano
pede que ele se distribua dentro de determinadas regras de equilíbrio
rítmico e métrico, enfim, que apresente um todo agradável.
Conforme a maneira que a música (ou tema) seja colocada dentro
do tempo e do espaço, surgirá esta ou aquela forma musical.
A forma é o modo de distribuição desses elementos
e a relação a ordem e dependência que mantêm
entre si. Podem ser muitas e variadas, recebendo nomes específicos:
Rondó, Dança, Fuga, Fantasia, Minueto, Prelúdio,
Variação.
O MEDIEVAL RONDÓ
Originalmente o Rondó chamava-se “Rondeau” e constituía
a “canção de roda”, forma medieval de música
para baile. O solista cantava as variações e o côro
respondia com o refrão, também chamado ripresa ou ritornello,
ou seja, “devolvia” a parte sempre igual do tema. O sistema
foi usado no século XVII, principalmente pelos franceses François
Couperin, D’Algbert e Jean-Philippe Rameau e pelos compositores
de ópera.
Em fins do século XVIII, o termo foi italianizado, transformando-se,
em Rondó; passou a ser utilizado no movimento final das sonatas,
concertos e sinfonias clássicas, baseando-se, mais ou menos,
no princípio da “ronda cantada”. Após diferentes
variações, que para melhor compreensão podem ser
identificadas como B, C e D, volta-se sempre para A, que é o
tema base, refrão ou Rondó. B, C e D são de menor
importância e mais curtos, existindo quase que só para
dar contraste e destaque a A. A forma musical Rondó é
geralmente alegre, fácil de ouvir e distinguir seus movimentos
rápidos: A, B, A, C, A, D, A, e assim por diante, sempre retornando
a A. Um exemplo célebre de Rondó é a Marcha Turca,
de Mozart.
MINUETO: DE DANÇA À FORMA MUSICAL
Minueto era uma dança francesa de ritmo ternário (em três
tempos), muito cultivada na Côrte desde o século XVII.
Damas e cavalheiros de cabeleiras empoadas acompanhavam o andamento
lento e cerimonioso da música fazendo mesuras e dando passinhos
( menu – pequeno). Partindo da França, o minueto conquistou
toda a Europa, suplantando as demais danças que existiam. Aos
poucos deixou de ser apenas uma dança e passou a ser uma forma
musical particular, usadas em peças instrumentais que não
eram para ser dançadas e sim ouvidas.
No século XVIII, passou a integrar-se nas formas clássicas,
com ritmo acelerado, aparecendo como trechos de suítes e sinfonias.
Usando outras vez as letras, pode-se dizer que as parte que compõe
o minueto são duas, dispostas assim: A, B, A; A, B, A, podendo
ser repetidas muitas vezes mas conservando sempre a mesma ordem. Um
exemplo típico de minueto como dança encontra-se também
na obra de Mozart, em Don Giovanni. E entre os mais populares, há
o famoso minueto de Bocherini.
A MESMA MÚSICA SOBRE NOVO ÂNGULO
No sentido geral do termo, Variactio, variação, seria
qualquer modificação feita numa música já
composta. Mas, em geral, trata-se da repetição de um tema
musical em forma diferente da original.
As alterações executadas nessa repetição
podem afetar a melodia, o ritmo, a harmonia e a orquestração,
mas essas diversas possibilidades não podem parecer combinadas.
Isso porque se deve permitir que se identifique o tema e as alterações
sobre a composição original. O tema utilizado para a composição
de variações é geralmente curto e simples. Muitos
autores famosos fizeram variações sobre temas de autores
não menos famosos. É o caso de Beethoven, que compôs
variações sobre temas de Diabelli; de Brahms, sobre temas
de Händel.
Existem ainda variações cujo tema não é
uma música inteira já composta mas apenas um fragmento
ou grupo de harmonias. Esse fragmento serve como tema da nova composição,
sendo “aumentado” e “reforçado”, enriquecido
de novas variações, que podem afear a melodia, o ritmo,
a orquestração. Em seu primeiro movimento a Sonata em
Lá maior, de Mozart, nos oferece um exemplo típico de
variação. No campo da orquestração musical,
destaca-se o Bolero, de Ravel. As mais antigas variações
encontram-se nas composições polifônicas, no Cantochão
e nas músicas medievais.
FUGAS, A ESPECIALIDADE DE BACH
Três cantores dão um recital: um barítono, um soprano
e um tenor. O barítono canta uma melodia curta. O tenor retomará
essa melodia, com ligeiras modificações. O soprano retoma
a melodia cantada pelo tenor, dando-lhe, por sua vez, novas características.
Cada voz deve fazer, que sua voz coincida com as demais, a fim de obter
um conjunto Harmonioso: é a Fuga, uma das formas musicais mais
elaboradas e difíceis, tanto de compor como de ouvir. É
preciso que o ouvido esteja habituado, a fim de estar apto a acompanhar
e aprender a sutileza da harmonia, vocal e do contraponto.
Chama-se Fuga porque uma voz parece estar fugindo completamente da outra.
Toda a teoria sobre essa forma musical se baseia em Johann Sebastian
Bach que, com maestria de gênio, deu vida a uma imensa variedades
de construções de fuga, esgotando todas as possibilidades
do contraponto (técnica da fuga) principalmente em duas obras:
O Cravo bem temperado e Arte da Fuga. Depois dele a fuga passou a existir
em obras sacras, transformando-se em mero exercício de contraponto.
Na música do século XX, tornou a aparecer com compositores
de peças de estilo neobarroco e neoclássico.
SONATA, BASE DE MUITAS OUTRAS FORMAS
Tendo origem na palavra latina suonare, que significa “soar”,
a sonata é uma composição instrumental, composta
geralmente para piano violino e violoncello. Consta de três ou
quatro movimentos, organizado segundo determinadas regras: o primeiro
compreende a exposição, desenvolvimento e reexposição
de dois temas diferentes, como se fossem dois atores dialogando; o segundo
movimento e lento e expressivo, encontrando-se, muitas vezes, com o
terceiro, que pode ser um minueto. O final da sonata é geralmente
um Rondó.
Como forma musical, é uma das mais significativas, pois além
da importância que tem como um todo em si mesmo, é a estrutura
de base de outras formas musicais.
Encontra-se a sonata, como forma, na sinfonia, nos diversos tipos de
música de câmara, no concerto instrumental. Sinfonia, seria
a sonata executada por orquestra; quarteto, a sonata para quatro instrumentos
de câmara, e assim por diante: trios, quintetos, octetos, e etc.
A expressão sonata, foi usada pela primeira vez em 1580. No século
XVIII seus maiores compositores foram Mozart e Haydn. Foi nessa época,
que adquiriu o esquema de três ou quatro movimentos e dividiu-se
em três gêneros: a sonata de câmara para: trios, quartetos,
quintetos; e a sonata orquestral a sinfonia. Conservando seus quatro
movimentos, Beethoven deu forma definitiva à sonata.
Do ponto de vista histórico, as mais importantes sonatas foram
compostas por: Beethoven, Haydn, Mozart, Schubert. No século
XIX, sofreu certo declínio em sua popularidade, o que ocasionou
a diminuição da produção. No século
XX, voltou a despertar o interesse dos amantes de música e de
certos compositores, principalmente Stravinski e Hindemith.
PRELÚDIO: O CARTÃO DE VISITAS
Como diz o nome, prelúdio é uma peça musical executada
antes da obra propriamente dita, de uma representação
ou mesmo de uma cerimônia. É a introdução
ao que está por acontecer, a abertura, enfim. Com esse sentido
são famosos os prelúdios de Bach. A partir do século
XIX, tornou-se uma forma musical curta, quase independente da obra que
viria a seguir e tinha fim puramente descritivo e impressionista. O
prelúdio foi muito empregado sob esse aspecto nas composições
de Chopin, César Franck e Claude Debussy. Nas obras Lohengrin
e Parsifal, Wagner apresenta o prelúdio como abertura curta de
um drama lírico, e introduz nele, trechos do drama.
No início do século XX, alguns autores procuraram compor
“formas abertas”, indeterminadas, como se a música
saísse do terreno da poesia e entrasse no da prosa. Mas a prosa
também tem formas próprias. E a forma da música,
quando bem estruturada, pode ser a mesma dos trovadores medievais.
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