Untitled Document

Hoje é Domingo, 05 de Setembro de 2010.
26 Elul, 5770.

Técnica Inquisitorial
Bernard Gui
Tradução: Leonardo Santos

Bernard Gui foi inquisidor em Touloussel de 1307 à 1323. A Inquisição Medieval foi criada durante o papado de Gregorio IX (1227-1241). Sua principal técnica era extrair confissões. Bernard Gui relata esta técnica usada nos interrogatórios.

Quando um herege é trazido pela primeira vez, ele assume um ar confidente, como se estivesse seguro de sua inocência. Eu pergunto a ele porque ele foi trazido até mim. Ele responde sorridente e cortez: Senhor, ficaria contente de saber isto por vossa boca.

Eu: És acusado de heresia, o que acreditas e ensinas é contrario ao que a Santa Mãe Igreja acredita.

Acusado: [Erguendo os olhos para o céu, com ar de grandiosa fé] Oh! Senhor, vós sabeis que eu sou inocente disto. e que eu nunca carreguei outra fé que não a do verdadeiro cristianismo.

Eu: Falas em fé cristã pois acreditas a nossa como falsa e herética. Mas eu entretanto te pergunto se já acreditaste como verdadeira outra fé que não àquela que a Igreja Romana crê como sendo verdadeira?

A: Eu acredito na verdadeira fé da qual a igreja de Roma acredita, e da qual abertamente nos pregais.

Eu: Talvez tenhas uma seita em Roma da qual chamas de igreja de Roma. Eu, quando prego, digo muitas coisas, algumas das quais são comuns entre ambas, como que Deus vive, e acreditas em algo do que eu prego. Embora possas ser um herege em não acreditar em certas coisas que são para serem acreditadas.

A: Eu acredito em todas as coisas que um cristão deve que acreditar.

Eu: Eu conheço teus truques. O que os membros de tua seita acreditam consideras como sendo aquilo que um cristão deve acreditar. Mas nós perdemos tempo nessa luta. Diga simplesmente: Acreditas em Deus Pai, Filho e Espírito Santo?

A: Eu acredito.

Eu: Acreditas que o Cristo nasceu da Virgem Maria, sofreu, ressucitou e subiu aos céus?

A: [vivamente] Eu acredito.

Eu: Acreditas que o Pão e o Vinho nas missas realizadas pelos padres se transmutam no Corpo e no Sangue de Cristo por virtude Divina?

A: Não deveria eu acreditar?

Eu: Não perguntei se deverias ou não acreditar, perguntei se acreditas.

A: Eu acredito em tudo que o senhor e os bons doutores me mandarem acreditar.

Eu: Estes bons doutores são os mestres de tua seita. Se o que eu falo concorda com o que eles ensinam então acreditas em mim, senão não.

A: Eu acredito de boa vontade em vós se o que me ensinais é bom para mim.

Eu: Consideras bom para ti se o que eu ensino é o mesmo que ensinam os mestres de tua seita. Digas, então, tu acreditas que o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo está no altar?

A: Eu acredito que um corpo está lá. E que todos os corpos são de Nosso Senhor.

Eu: Eu pergunto entretanto se o corpo que está lá é o corpo do Senhor que nasceu da Virgem, Morreu na cruz, desceu a mansão dos mortos, ressucitou ao terceiro dia, subiu aos céus etc?

A: E o senhor, acredita nisso?

Eu: Eu acredito completamente.

A: Eu acredito igualmente.

Eu: Tu acreditas que eu acredito, mas perguntei-te se acreditas nisso.

A: Se desejais interpretar tudo o que eu digo de forma oposta a mais simples e clara, então não sei o que dizer. Eu sou um homem simples e ignorante portanto não me confundais com as minhas palavras.

Eu: Se és simples então respondas simplesmente sem respostas evasivas.

A: De boa vontade.

Eu: Juras que tu não aprendestes qualquer coisa contrária à fé que nós consideramos verdadeira?

A: [ficando pálido] Se eu devo jurar, eu jurarei de boa vontade.

Eu: Eu não perguntei se tu deves, mas se juras.

A: Se vós me mandardes jurar, eu jurarei.

Eu: Eu não forço-te a jurar, porque como sabes que isto é ilegal, transferirás o pecado para mim que te forcei. Mas se jurares, eu ouvirei.

A: Por que eu devo jurar se vós não estais mandando?

Eu: Para que tu possas deixar de ser suspeito de heresia.

A: Senhor, eu não sei fazer a menos que vós ensineis a mim.

Eu: Se eu fosse jurar eu levantaria minhas mãos e estenderia meus dedos e diria: "Me ajude Deus, Eu nunca aprendi heresias e nunca acreditei em outra fé que não a verdadeira."

Então trêmulo ele não consegue repetir a fórmula. Ele até o fará, embora o faça dizendo para si próprio ou como se fizesse a outro, o que absolutamente não é um juramento verdadeiro ainda que ele pense que seja. O acusado troca as palavras fazendo parecer que haja jurado quando na verdade não. Ou então ele converte o juramento numa forma de preçe como: "Deus me ajude pois não sou herege ou coisa do tipo”. E então perguntado se ele jurou dirá: Não me ouvistes jurar? [E quando duramente pressionado ele irá apelar dizendo] "Senhor, se eu for considerado um renegado eu irei aceitar de boa vontade a penitência. Somente ajudai-me a evitar a infâmia de que fui acusado maliciosamente pois sou inocente”. Mas um vigoroso inquisidor não pode se deixar ser manipulado dessa forma, mas proceder firmemente até que ele faça aquelas pessoas confessarem o seu erro ou no mínimo abjurar a heresia publicamente. No entanto se eles forem pegos jurando falsamente, ele pode sem mais delongas, entrega-los aos braços da justiça secular.

Fonte: Fonte: H. C. Lea, trans., A History of the Inquisition of the Middle Ages, (New York, Harper & Brothers, 1887), Vol. 1, pp. 411-414 Tradução: Leonardo Santos – 1997 – 2006.
Tradução: Leonardo Santos – 1997 – 2006.