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Revificação
de Bach
Por Leonardo Perin
A redescoberta durante a primeira metade do século XIX da música
de Johann Sebastian Bach marcou a primeira vez que um grande compositor,
após um período de esquecimento, foi recolocado no seu
lugar de direito por uma geração posterior. Palestrina,
Lully, Purcell e Handel nunca tinham sido completamente esquecidos pelo
publico musical, mas Bach era conhecido apenas por um reduzido número
de alunos e devotos até que o movimento Romântico estimulasse
um crescente interesse em sua arte. A revivicação de Bach
foi um exemplo prematuro de um novo historicismo que eventualmente abriu
todos os períodos da música do ocidente para a descoberta
e execução, e que agora constitui o fator dominante no
gosto musical das sociedades ocidentais avançadas. Essa revificação
começou quase ao mesmo tempo na Alemanha, onde a maioria dos
descendentes e alunos de Bach além de sua própria música
seriam encontrados; e na Inglaterra, onde o historicismo musical tinha
já avançado bastante desde o fim do século XVIII.
1. Alemanha e Áustria.
Bach sempre foi um compositor conservador, e no final de sua carreira
seu estilo começou a se tornar fora de moda, falhando em dá-lo
alguma reputação como compositor no mundo moderno. Sua
música foi atacada por Scheibe em 1737 por “excesso de
arte” e por seu “estilo túrgido e confuso”.
Nas obras de seus últimos anos de vida – a Missa em Bm
completa, A Oferta Musical, a Arte da Fuga entre outros – ele
virtualmente voltou-se para o que restava de seu público, escrevendo
para ele próprio, e talvez, para a posteridade. No período
de sua morte, o conhecimento público de sua música era
quase nulo. Mesmo na Igreja de São Thomas em Leipzig, seus sucessores
somente ocasionalmente usavam suas cantatas; as obras para órgão,
também, raramente eram ouvidas, exceto quando elas eram tocadas
por algum de seus filhos ou alunos. Pesquisas recentes, entretanto,
têm modificado essa crença largamente difundida, datando
do final do século XIX, que as composições de Bach
foram em grande parte ignoradas por seus contemporâneos e esquecida
por mais de cinqüenta anos após sua morte. Embora poucas
de suas obras tenham sido publicadas durante sua vida, sua música
para teclado tinha se disseminado amplamente em manuscritos e um enorme
número de cópias foram feitas, particularmente do Das
wohltemperirte Clavier (O cravo bem temperado) Há evidências
de que Bach tenha emprestado algumas composições sacras
para amigos e alunos como J.W.Koch e C. G. Wecker. De fato, o grande
círculo de alunos de Bach era a maior força na distribuição
de sua obra.
No final da segunda metade do século XVII, Bach era lembrado
como mestre na execução de órgão e um erudito
em contraponto. A primeira grande nota biográfica de Bach, por
J.A. Hiller, seu terceiro sucessor na Igreja de São Thomas, deu
somente um superficial e condescendente relato de suas composições
(1784); enquanto Reichardt observou em 1782: “Bach possuía
a alta integridade e o sentimento profundamente expressivo que inspirou
Handel, ele deve ter sido muito maior que Handel; mas assim como este
ele era diligente e tecnicamente habilidoso”. Os próprios
filhos de Bach o colocaram de lado, em rejeição aos princípios
artísticos que ele ergueu, e que foram além das mudanças
normais em estilos que foram encontrado em outros períodos. Os
sentimentos de C.P.E. Bach eram ambíguos. Durante o período
em que esteve em Hamburgo (1768–88) ele usou recitativos e corais
de duas Paixões de seu pai como se fossem seus. Ele também
incorporou algumas das cantatas em pastíccios e editou o coral
a quatro vozes para publicação. J.C.F. Bach também
incluiu movimentos corais de seu irmão mais novo em sua cantata
Der Tod Jesu e em seu oratório Die Auferweckung Lazarus.
Foi em Berlim, onde C.P.E. Bach esteve empregado até 1767, que
o mais forte grupo dos discípulos de Bach se concentrou. Eles
preservaram e divulgaram muitos dos manuscritos originais das Obras
de Bach que sobreviveram. Agrícola, Kirnberger, Nichelmann e
Marpurg possuíam uma grande coleção desses manuscritos
e publicaram influentes tratados que discutiam a produção
de Bach sob várias perspectivas. Tendências altamente conservadoras
se manifestaram na veneração de Bach por Kirnberger e
pelo círculo da Princesa Amália, onde Bach era visto como
um contrapeso para os recentes desenvolvimentos em estética musical.
Em Leipzig as cantatas adquiridas em 1750 da herança de Anna
Magdalena Bach serviram como base para execução de sua
música por Gottlob Harrer, sucessor de Bach na Igreja de São
Thomas e por J.F. Doles. Um desejo de ter algumas das grandes obras
corais, que tinham deixado Leipzig com os filhos de Bach, disponíveis
para execução pelos alunos da escola de São Thomas
resultou em um grande número de obras espúrias (A paixão
de São Lucas, o oratório Jesu deine Passion, da Missa
em G maior), que tinham um considerável efeito sobre a imagem
de Bach na virada do século. Há evidências de que
as cantatas de Bach foram executadas em Leipzig no início do
século XIX assim como também na metade do século
XVIII.
A revificação em Vienna no final do século XVIII
foi instigado e bastante encorajado por figuras chave como o Barão
Gottfried van Swieten e por Fanny von Arnstein. O primeiro estava familiarizado
com a tradição de Bach por causa de seu posto como embaixador
na Corte da Prússia, e a última pela origem de sua família,
Os Itzig de Berlim. Estes dois patronos devem ter influenciado a consideração
que tanto Mozart quanto Beethoven tiveram a respeito de Bach. Em abril
de 1782, Mozart escreveu que “nada além de Handel e Bach”
era tocado nos recitais de domindo na casa dos van Swieten. O oficial
do governo austríaco, Franz Joseph, Reichsritter von Hess, também
possuía uma enorme coleção de Obras de Bach.
Uma apreciação mais geral de Bach veio somente como resultado
do Culto Romântico ao passado. Surgindo na Inglaterra, este movimento
foi imensamente fortalecido em sua fase alemã pelo patriotismo
e pelos motivos religiosos. As humilhações militares e
políticas do período Napoleônico geraram um desejo
de recuperar as antigas tradições Alemãs, enquanto
uma revificação religiosa incitou a busca pelo o que era
verdade e distintivamente religioso na herança cultural. Nisto,
Bach se tornou a figura arquetípica. A influência de J.N.
Forkel, organista e diretor musical da Universidade de Göttingen,
era particularmente importante. Forkel começou a planejar uma
biografia de Bach em meados de 1770, e consequentemente estava em contato
com os dois filhos mais jovens de Bach. Por intermédio eles,
ele se familiarizou com muitas das composições de Bach,
e estava preparado para adquirir cópias e em alguns casos manuscritos
originais. “Este grande homem”, Forkel escreveu, “era
um Alemão. Nos orgulhemos dele, pátria Alemã, mas
sejamos merecedores dele também. ...Suas obras são inestimável
patrimônio com o qual nenhuma nação tem nada de
comparável”.
Forkel foi introduzido por Rochlitz no Allgemeine musikalische Zeitung
de Leipzig, que teve em seu primeiro volume (1798) um retrato de Bach.
Rochlitz estava determinado a pintar uma figura romântica e santificada,
comparando ele esteticamente e moralmente com Dürer, Rubens, Newton
e Michelangelo. Os aspectos religiosos da Arte de Bach eram importante
para outro recém convertido, C.F. Zelter, um regente da Academia
de Canto de Berlim, fundada em 1791 por C.F.C. Fasch, um das mais antigas
instituições alemãs a organizar concertos históricos.
Ele tinha herdado uma grande coleção de manuscritos de
Bach que pertenceram a Kirnberger e a Agrícola, e ele fez uso
disso em seus concertos pioneiros de revificação dos motetos
de Bach e outras peças sacras. Ele ensaiou a missa em Bm em 1811
e a Paixão de São Mateus em 1815 mas não chegou
praticamente a pensar em uma execução delas. Por intermédico
de Rochlitz e Zelter, Goethe em sua velhice tornou-se um profundo admirador
de Bach. E.T.A. Hoffmann, outra figura literária influente, desenvolveu
a idealização da concepção Romântica
que Rochlitz tinha começado a construir.
O ápice do entusiasmo por Bach culminou com a execução
da Paixão de São Mateus pela Academia de Canto em 1829,
sob a regência de Mendelssohn. Esta foi a virada decisiva da reputação
de Bach, pois isto transformou rapidamente a revivicação
de um culto de intelectuais em um movimento popular. Zelter tinha permitido
que uma cópia do manuscrito autografado fosse feita em 1823;
com louvável ato de humildade ele cedeu a honra de conduzir a
execução para seu aluno. Mendelssohn, embora a principio
estivesse hesitante, eventualmente aceitou realizar essa tarefa formidável.
Ele fez seu próprio arranjo da música da cópia
de Zelter; cortes, mudanças e acréscimos foram feitos.
Após aproximadamente dois anos de ensaio, a execução
foi realizada em 11 de março de 1829, e fez mais sucesso que
a primeira apresentação realizada exatamente um século
antes. A platéia estava profundamente comovida; Hegel, que estava
presente, mais tarde escreveu que “Bach era o maior e verdadeiro
Protestante, robusto e gênio erudito, o qual nós só
recentemente aprendemos a apreciar em todo seu valor”. Outras
duas apresentações se seguiram, a última conduzida
por Zelter. Mosewius, que também tinha ouvido a obra em Berlim,
conduziu ela em 1930 em Breslau, um importante centro de revificação
da religiosidade Protestante e na casa de Winterfeld. Königberg
foi a próxima cidade a ouvir a paixão; Ela não
foi apresentada em Leipzig até 1841. Enquanto isso a Academia
de Canto de Berlim produziu a Paixão de São João
em 1833, e uma versão truncada da Missa em Bm em 1835 (O credo
tinha sido revivido em 1828 na cidade de Frankfurt por Schelble). Um
crescence número de cantatas foram adicionadas ao repertório
Coral desse período.
A primeira metade do século XIX viu grandes esforços no
sentido de preservar a Obra de Bach. Com a morte de seus filhos e alunos,
havia um perigo de que o cultivo da música de Bach, nutrida em
sua maior parte pela tradição oral no século XVIII
e baseada em coleções privadas, pudesse gradualmente desaparecer.
Em 1801 a empresa Hoffmeister & Kühnel de Leipzig começou
a publicar as obras para teclado em uma coleção intitulada
Oeuvres complettes. Ela foi subsequentemente supervisionada por Forkel,
e concluída em 1804 com o lançamento do décimo
sexto volume. A publicação da Biografia de Bach feita
por Forkel pela mesma firma em 1802 foi determinante para o comercial
desta “edição completa”.
Outras seleções da música de Bach foram lançadas
logo depois de 1800, publicadas em Leipzig pela Breitkopf & Härtel
(os motetos, uma edição de quatro volumes dos prelúdios
para órgão e a missa espúrita BWV Anh. 167), por
Simrock em Bonn (Das wohltemperirte Clavier) e nas séries Musikalische
Kunstwerke im strengen Style, editadas por Hans Georg Nägeli (as
sonatas para violino e cravo, as Variações Goldberg, Das
wohltemperirte Clavier e a Arte da Fuga). Essas edições
enfatizavam as obras instrumentos, e com raras exceções
davam pouca atenção às composições
vocais de Bach. Significantemente, historiadores musical do período
Romântico viram Bach como um compositor de musica instrumental,
e a biografia de Forkel segue pela mesma linha.
As edições mencionadas acima tiveram um efeito crucial
na imagem de Bach nas primeiras quatro décadas do século
XIX. No mesmo tempo houve uma incrível demanda por uma edição
completa das composições de Bach. Em muitos aspectos a
Edição da Sociedade Handel de Londres, que foi iniciada
em 1843, foi tomada como modelo para praticamente todo o projeto. A
Bachgesellschaft foi fundada em 1850, no centésimo aniversário
da morte de Bach, para promover a edição completa de sua
obra, e a sociedade devotou-se nessa tarefa nos cinqüenta anos
seguintes. Como um resultado do alcance das realizações
de Bach, particularmente como um compositor de musica vocal, gradualmente
se tornou evidente para uma grande platéia. Uma peça conjunta
da edição são os escritos do compositor Philipp
Spitta. Mesmo depois que todas as músicas conhecidas de Bach
estavam disponíveis entre 1850 e 1899, não se notava ainda
um crescimento imediato do número de apresentações;
de fato, durante a década de 1870, quando o número de
sócios da Bach-gesellschaft passou um pouco mais de 300, duvidava-se
muitas vezes se a edição poderia ser terminada. Não
obstante os volumes, embora eles variassem em precisão acadêmica,
foram uma conquista notável. E estabeleceram os princípios
básicos para a erudição musical das edições
que se seguiram. Elas completaram a Revificação de Bach,
e tornou possível que o nome de Bach voltasse a figurar em seu
devido lugar na preferência geral ao lado ou mesmo acima de outros
grandes compositores.
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