| COMO
ESCREVER UM SONETO
Introdução
É
quase um desaforo tentar ensinar regras a alguém que pretende escrever
uma poesia, onde cada verso produzido resulta de uma inspiração
que, além de individual, é uma manifestação
do pensamento livre. Em outras palavras, não dá para dizer
a um poeta "seja metódico em seus versos". Deve partir
do próprio poeta a iniciativa de seguir ou não as regras
que existem nos sonetos.
A
maioria dos poetas citados nessas páginas não se limitou
a elaborar sonetos. Alguns deles, eu creio, foram atraídos pela
história e pela sonoridade dessa composição. Um soneto
é uma obra curta criada para transmitir uma mensagem em seus catorze
versos, divididos em dois quartetos (grupos de quatro versos) e dois tercetos
(três versos), ou três quartetos e um dístico (dois
versos).
Métrica
Em
primeiro lugar, os versos devem possuir a mesma métrica, ou seja,
o mesmo número de sílabas poéticas. Uma sílaba
poética é bem diferente de uma sílaba comum. É
possível unir duas ou mais palavras em apenas uma sílaba
poética. Veja o verso abaixo:
"Busque
amor, novas artes, novo engenho..." (Luis de Camões)
Tente
ler esse verso devagar, como se fosse uma só palavra, e vá
contando quantas pausas existem até a última sílaba
tônica.
1
| 2 | 3 |4 | 5 |6 | 7 |8 | 9 |10|
Bus quea mor, no vas ar tes, no voen ge nho
Você
encontrou as dez sílabas poéticas, certo? Repare que a expressão
"busque amor", aos invés das quatro sílabas comuns
(bus-que-a-mor), tem na poesia apenas três sílabas. Costuma-se
ensinar as sílabas poéticas como sendo a forma em que são
"ouvidos" os versos, por isso a sonoridade é importante
em um soneto.
Camões
escreveu seus sonetos (e Os Lusíadas também) usando sempre
dez sílabas poéticas. Outro exemplo pertence a Vinícius
de Moraes:
"De
tudo, ao meu amor serei atento..."
Poeticamente,
o verso acima é dividido assim:
1
|2 | 3 | 4 |5| 6 |7 | 8 |9|10 |
De tu doao meu a mor se rei a ten to
Versos
com dez sílabas poéticas são chamados decassílabos.
Outra forma famosa de escrever são os versos alexandrinos ou dodecassílabos
(doze sílabas), conforme exemplo:
"Sinto
que há na minha alma um vácuo imenso e fundo..." (Machado
de Assis)
Tente
perceber as doze sílabas. Se não conseguir, veja abaixo
como o verso é dividido.
1
|2 | 3 |4 |5 | 6 | 7 |8 | 9 |10 | 11 |12 |
Sin to quehá na mi nhaal maum vá cuoi men soe fun do
Curiosamente,
Olavo Bilac, um dos maiores poetas brasileiros, tinha em seu próprio
nome um verso alexandrino: Olavo Brás Martins dos Guimarães
Bilac. Dizem que ele já nasceu predestinado à poesia. Coincidência
ou não, meu nome completo também é um verso alexandrino:
Bernardo Sá Barreto Pimentel Trancoso.
Posicionamento
de rimas
Além
do número de sílabas, outra característica importante
de um soneto é a ordem em que os versos rimam, ou posicionamento
de rimas. Para os quartetos, existem três formas principais de posicionamento:
Rimas
entrelaçadas ou opostas - abba (o primeiro verso rima com o quarto,
o segundo rima com o terceiro):
"Vês?!
Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável..." (Augusto dos Anjos)
"Pequei,
Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado..." (Gregório de Matos)
Rimas
alternadas - abab (o primeiro verso rima com o terceiro, o segundo rima
com o quarto):
"Cheguei.
Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha..." (Olavo Bilac)
"Quando
em teus braços, meu amor, te beijo,
se me torno, de súbito, tristonho,
é porque às vezes, com temor, prevejo
que esta alegria pode ser um sonho..." (Martins Fontes)
Rimas
emparelhadas - aabb (o primeiro verso rima com o segundo, o terceiro rima
com o quarto):
"No
rio caudaloso que a solidão retalha,
na funda correnteza na límpida toalha,
deslizam mansamente as garças alvejantes;
nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes..." (Fagundes
Varela)
"Nada
vai separar; existem laços.
Nem vai desenlaçar, nem nos espaços
Entre os passos que, juntos, damos sós,
Nem antes dos abraços, nem após..." (Bernardo Trancoso)
Os
tercetos, por sua vez, são mais flexíveis com relação
ao posicionamento das rimas. Fernando Pessoa, por exemplo, usou a estrutura
cdc ede nos tercetos a seguir:
"Há
saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
Mas
- esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?..."
William
Shakspeare, por sua vez, escrevia, ao invés de dois tercetos, um
quarteto e um dístico (cdcd ee).
"But
thy eternal Summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st,
Nor shall Death brag thou wander'st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st,
So
long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee..."
Outros
exemplos de posicionamento de rimas nos tercetos são cde cde, um
dos mais famosos, cde edc e também cce dde. Ao passear pelos sonetos
dessas páginas, tente notar que estilo o autor empregou em seus
versos. Escolha o que achar melhor para o seu soneto.
Até
aqui falei de métricas e de rimas, encontradas na quase totalidade
dos sonetos clássicos. Há sonetistas modernos, entretanto,
que aboliram esses conceitos, usando versos brancos (sem rima) em suas
composições. Martins Fontes escreveu o Soneto Monossílabo,
onde cada verso tem uma sílaba apenas.
"Negro
jardim onde violas soam
e o mal da vida em ecos se dispersa:
à toa uma canção envolve os ramos
como a estátua indecisa se reflete..." (Carlos Drummond de
Andrade)
Sonoridade
O
último componente importante de um soneto é a sonoridade,
isto é, onde estão as sílabas tônicas (ou fortes)
de cada verso. Quando combinadas, essas sílabas fazem com que o
soneto se pareça com uma suave canção. Quanto à
sonoridade, os versos decassílabos classificam-se em dois tipos:
heróicos e sáficos.
"Já
Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento..." (Bocage)
Esses
são versos decassílabos heróicos, porque as sílabas
poéticas tônicas são a sexta e a décima, indicadas
em negrito. Todos os 8816 versos de "Os lusíadas" são
decassílabos heróicos. Um verso decassílabo sáfico,
por sua vez, reforça a quarta, a oitava e a décima sílaba
poética:
"Vozes
veladas, veludosas vozes..." (Cruz e Souza)
Finalmente,
os versos alexandrinos possuem a quarta, a oitava e a décima-segunda
sílaba poética como sílabas fortes, ou a sexta, a
décima e a décima-segunda.
Conclusão
O
que mais torna um soneto possível? A inspiração,
o tema, o conhecimento das palavras e das rimas, que serão mais
ricas quanto mais rico for o vocabulário do sonetista. Por isso,
a leitura de outros sonetos, poesias e livros é importante.
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